LÂMINA DE AÇO  escrito em terça 07 outubro 2008 03:05

Eu sabia como seria ficar fora dali. Cada vez que o trem distanciava-se dava-me um arrepio. Daqui um pouco não teria mais a noção, a dimensão do que havia me acontecido, ou teria? Na verdade queria esquecer. Com certeza eu precisava partir, não dava mais pra ficar ali, como se nada tivesse acontecido. No passado tudo era tão interessantemente lindo. Tudo parecia escrito em folhas com fios dourados, entre-meios, com bordados em alto relevo. Um belo enredo que hoje ao espremer as folhas jorram sangue vivo por entre as minhas mãos magras e trêmulas.
Lembro-me que uma certa noite eu havia cochilado na sala após ter lido uma revista Time que trazia um assunto muito agradável. Casara a seis meses, ainda me sentia em lua de mel. Meu marido saiu para resolver uns assuntos pendentes referente a uns projetos de trabalho e com certeza logo voltaria. Estavamos planejando uma viagem ao Caribe, a tempo ele falava sobre isso.
-Vamos querida, dizia ele. Os negócios estão todos em ordens e não posso perder essa oportunidade. Guardamos nossas economias pensando nessa viagem. Eu estava um pouco sem coragem para viajar agora, estava me sentindo estranha, covardemente me pus contra os seus planos. Não era normal a minha atitude, porém não estava a fim de cogitar muito à respeito do que eu estava querendo. Algo me prendia ali, era um aperto súbito no coração. Cheguei à comentar para o meu marido. Ele me acalmou, disse que não deveria ser nada demais.Talvez ainda estivesse sobre efeito da mudança, cidade nova, pessoas e costumes diferentes. Concordei e não voltei a falar mais no assunto. Só que nada de sair voando para outro lugar agora. Mesmo que houvessemos combinado a muito tempo.
-Bem, acordei com um toque da campanhia, alguém impaciente tocava insistentemente para que eu o atendesse. Levantei um tanto tonta. Quando cheguei à porta encontrei um homem que eu nunca tinha visto. Ele me me falou cortando palavras que num bairro vizinho dali o meu marido havia sofrido uma agressão por parte de um homem desconhecido. Ele sabia o motivo, mas disse-me que eu precisava ir até lá, que meu marido estava muito mal e me chamava. No caminho fiz tudo para o homem falar-me do que se tratava, sem sucesso. Em dado momento me perguntei o que estava fazendo naquele carro, afinal aquela história toda havia me fragilizado, pois só depois é que pensei na minha atitude precipitada. Diante do fato e com tal veemência que aquele homem falou para mim e se tratando do meu marido não pensei muito para agir. Tentei ligar para me aconselhar com uma tia, mas o telefone não respondeu, liguei para o meu pai e nada. Era nova naquela cidade e os meus parentes não podiam fazer nada por mim pessoalmente. Até que fiquei mais calma porque o jovem homem disse que ele estava bem, só um pouco ferido, nem me dei conta que anteriormente ele havia dito que meu marido estava muito mal.
Ao chegar no local verifiquei que era uma casa velha, a qual não tinha visto pintura a muito tempo; tipo casarão abandonado. Aí sim, bateu-me um medo e recuei. Disse ao moço que não iria entrar ali, que ele desse um jeito de junto a outra pessoa trazer o meu marido até mim, que eu cuidaria dele, depois disso. O homem se recursou e disse que não estava de brincadeira, que não tinha feito uma viagem pra nada. Foi quando confessou que havia sido pago para aquela incumbência e não seria eu a fazê-lo de otário.
-Então, ali naquela hora eu senti que estava numa enrascada e que não podia mais sair sem saber o que me esperava do outro lado da porta.Senti uma vento forte sobre o meu corpo, cinco segundos atropelou a fala, o vento cortou-me a face, era um ar pesado e frio.
-Ao entrar levei um grande susto, a casa estava fazia, era um terreno baldio por dentro, sem divisão de quartos, sala, ou outros cômodos qualquer, só as colunas. Aquele olhar austero, estático me apavorou e eu comecei a tremer diante do desconhecido, era um olhar de mulher ferina, ferida, aquele olhar cortante varava os meus.
Tentei me acalmar e perguntei: Por que fui chamada aqui?
Foi dito para mim que meu marido havia sido machucado e me chamava, ferido e apreensivo pela minha presença para socorrê-lo.
-Ela me olhou ainda com o olhar mais duro e disse: Você está aqui para saber de um fato que foi omitido a você, antes de você começar a sua nova vida. Eu sou esposa do seu marido. Vivi com ele a 30 anos e tenho três filhos dele.
-Eu confesso que fiquei atônita e não conseguia me mexer de onde estava. Ela continuou a falar: Procurei falar com ele para que ele não fizesse isso, não se casasse deixando a gente sem um provento, sem uma consideração. No dia do seu casamento eu estive lá, assisti a tudo, eu não sou daqui, vim ao saber do destino dele. Por diversas vezes convercei com ele calmamente. Hoje à tarde esperei a saída dele de sua casa e consegui acompanhá-lo. Ele não me escutou, como sempre. Depois que tudo isso começou ele piorou, e eu me sentindo já cansada de tanto sofrer com a indifenrença dele, coloquei em ação o meu plano. Tomei de uma fúria e junto com aquele homem que lhe trouxe o matei. Nunca me conformei da sua união com ele e também não quero que você viva para rir da minha desgraça, do meu sórdido destino. Esse que eu bebo agora, lentamente e que me devora. Escolhi essa casa por si tratar de uma casa abandonada e que não levantará suspeita para o que pretendo fazer. Puxando de uma faca se dirigiu à mim com uma fome de vingança que lhe transformava o rosto. Abriu os braços como a navegar um rio. Enquanto ela se aproximava, busquei saber onde estava meu marido e como ela havia feito para se livrar dele. Queria saber mais detalhadamente. Ela disse que contou com uns compassas, não só o homem que ela antes havia se referido. Então, saiu me empurrando.
- Lutando contra o destino eu perguntei:
-Por que você está me enfrentando sozinha, sem ter os seus compassas aqui? Ela disse: Agora eu me garanto, não por você ser mulher e sim, por você ser uma mulher fraca, tímida e pouco inteligente.
-Fitei bem nos olhos dela como se quisesse fotografar seu interior e perguntei como ela sabia que eu era assim, como ela descrevia. Ela disse-me: por você ter casado com um homem sem nem ao menos saber quem ele era e por atender a solicitação de um desconhecido pelo amor do mesmo homem.
-Percebi que estava lhe dando com uma pessoa doente. Dessas que andam por aí, nas manchetes e jornais. Fiquei imaginando que aquilo não estava acontecendo comigo, é normal lermos nos jornais registro de vários tidos de violência sofrida por diversas pessoas, mas não imaginamos nunca sermos vítimas delas.
Tratei de salvar a minha pele e sair viva dali, se desse eu lutaria. Comecei a enfrentar aquela mulher que parecia mais uma selvagem que fugira da jaula naquele instante. Com certeza esfomeada. A luta corporal foi grande, como também a luta verbal. Tentei persuadi-la, dizer-lhe que eu não tinha conhecimento da situação, que eu ia compreender se soubesse antes, iria ajudar. Fui arranhada no braço, a faca passou de raspão. Foi aí que percebi que era um caso sério, e que realmente a minha vida estava a mercê daquela mulher desvairada. Um dado momento explodi de raiva, não quis mais ser passiva diante do que me acontecia, eu estava na linha da morte como ficou meu marido.Avancei em direção a faca e levada pelo desespero virei o braço da mulher pra trás, como não sei, depois de uma intensa luta, de minutos intermináveis, esfaque-ei-a no pulmão.
Seu corpo caiu inerte e o meu entrou em pânico ao constatar a realidade. Nunca fui dada a violência, sempre fui uma pessoa dócil, todos da minha família diziam que essa era a minha marca de personalidade. Sai correndo sem saber como me livrar dali, não vi o homem que me trouxe àquela rua. As minhas roupas estavam manchadas de sangue e as mãos também, a rua parecia deserta, o que facilitou a minha fulga. Cheguei até uma delegacia e contei todo o ocorrrido e fui conhecedora de mais um problema que eu não sabia existir, a burocracia de se provar a inocência, os maltratos sofridos até que se prove. Tempo depois, de tudo resolvido, após a minha absolvição tratei de buscar os filhos dele no endereço da vítima, estavam abandonados a sorte e não tinha ninguém para reclamar das suas vidas, não pensei muito para tomar uma decisão e sair dali.
Hoje estou viajando longe do palco da dor, da visão negra do lado desumano, da revolta escarlate, dos enganos e desenganos. Levo comigo os três filhos de meu marido e às cicatrizes do destino que me colocou a prova e me mostrou também uma coisa: nunca conhecemos completamente alguém que colocamos em nossa vida.


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A LINGUAGEM DA TERRA  escrito em domingo 21 setembro 2008 08:41

Cafés Cereja,
Nervoeiros,ypês,
Pedras,ervas,grilos,
Morros, montanhas,rios,
O capim, o barro,as flores.
O úmido chão e o horizonte.
Os brasileirinhos,as carnaúbas,
Os sombreiros, as araucárias,
Os eucaliptos, os pinheiros,
Os coqueirais, as laranjeiras.
Como é bom os pés descalços,
Nos respingos,
Na aurora,agora,
Ouvir,calar,sentir,
Entender o universo.
O passeio das borboletas,
O trabalho nos formigueiros,
Os soldadinhos, as joaninhas,eu,
Nós, o mundo vivendo os sons dos pássaros,
As abelhas produzindo o mel, melaço,aço,ação.
Negociando com o mundo, o espaço mágico,mato,ato.
Enraizados na nossa essência, ciência, inteligênica,veemência,
Sem a gravata sufocar a ideologia,sem atrofiar as raízes profundas.

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LADOS ESTREITOS  escrito em quinta 18 setembro 2008 21:04

Sombras da história,
Insônia demente,
Pesadelos com gnomos,
Movimentos da terra
Despertam-me do sono.
 
Abro as janelas e a brisa não vem,
Durmo e acordo nas dobras da língua.
O rádio varre as décadas em vários ritmos,
Sons diacrônicos rompem o meu grito.

Não estou só, nessas paredes existo,
É necessário cantar entre o som dos meus gemidos
Minha alma animal mastigam pensamentos.
Somos tantos, somos quantos em um só momento.

Na espera da canção canta o galo do relógio
E os dragões ácidos queimam meu estômago.
Pedra, pau, vareta, guincho,
Portões de aço, grades e hospício.

Deixo rolar o lirismo das horas
Envolta as correntes que se soltam.
Falo em  línguas palavras mortas.
Sou calidoscópio em preto e branco.
Largo os pedaços e saiu porta a fora.

De um lado ouço um riso frouxo
Do outro lado desfaleço, choro, padeço.
Na esquina da rua amoleço,
Nas curvas de mim anoiteço,
Assim, amanheço na porta do outro.

Cortada em retalhos,
Desbotada em mil lados,
Perdida e achada nas rugas do tempo,
Abro-me, leio-me nesse vão reverso.

Acho-me em transe entre braços, mãos, olhos
E no quarto dos minutos me policio,
Sou eu mesma não o outro,
Que alarde o silêncio por entre fios.

Olhos, bocas, ouvidos,ocos, idos.
Tudo numa tela escura,
Num quadro cru, no sul da nua insensatez.
São pontos vagos, marcas de passadas...
Sinais de vôos noturnos.

Largo-me do divã afando
Casa com janelas, portas com trincos
Cabeça ornadas de rosas formosas.
No pingo do meio dia amo amo amo
E volto a dormir como um anjo.

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cais da alma  escrito em domingo 07 setembro 2008 19:33

A onda anda,
Aonde anda a onda?
Beijando a areia da praia,
Viajando nos meus olhos que marejam entre minhas mãos.
Anda onda, na onda dos meus orvalhos.
A andulante espuma espalha, pelo meu corpo,
Carícias imersa, emersa da minha universalidade,
Que desfila no fosco pensar do meu mar covarde.
Assim, navego no arrebol dos meus medos.
Onda, anda na espuma dos meus segredos!
Em seu caracol rolam os meus dedos,
Na onda gigante vão-se os meus sobejos.
Solto-me dos arrecifes afoita, querendo dominar-te.
Mergulho no cais da alma, sargaços;
Boiando nas correntes dos meus retraços,
Onde meu ser descama emoções inenarráveis.
Imerge-se do âmago a forte influência dos mistérios,
Largo-me dos desenganos no oceano profundo,
Sobrevivo às águas cristalinas e o seu lado mais escuro.
O sal de águas azuis andam nas ondas do verde mar
E os meus olhos acompanham os pescadores a marulhar.
De noite volto ao mar para buscar a lua,
Tão nua ,tão sua, juntas a me embriagar.
Silêncio nos meus olhos, sou amante desse delírio,
Sinto-me pequenino diante do imenso mar.
Anda onda arrebenta meus arrecifes,
Onda,anda, onde andas onda?
Por que não vens me buscar?
Ouço a velha canção do mar,
Anda...vens chegando,sinto.
No cair da tarde no canto do olhar,
O mar volta ao homem...
Com a boca cheia de peixes.

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PARAÍSO FISCAL  escrito em domingo 07 setembro 2008 06:57

O Carvalho
O calvário
O ovário
Onde cabe o mundo.
Calvo árido de desejo
O orvalho ensopando
O galho
A noite
A pipa
A criança coroando n(o) mundo.
Dorme a criança
Dorme a pipa
Os passos na areia roxa,
O folclore da Carvalhada se agita.
Brinca a criança nos morros,
Nas serras, nos becos escuros da vida.
Calvo alvo pressentimento
Toma o cavalo pela rédea
E solta o vento.
Nos passos, repassos
No tesouro os achados
Na constelação o caminho
Do calvário,
Do carvalho
Dos dentes mastigando os espinhos.
Terra massapé, terra de ninguém ,
Terra de todos.
Erra o caminho encosto,
Raiou o dia nos olhos do povo
Que cava cava cata a lida.
Um sol frondoso levanta o dia,
Terra vermelha amassa o pão,
O prego,
A tábua,
A mão,
O martelo
Abre o útero na estrada de ferro.
O trem nos trilhos ficou pra o metrô
Porta sem trinco ficou pra o doutor.
Medo, medo, vendo o medo pra o senhor.
Dedilhando a viola faço Roma sem os bárbaros,
Amazônia sem devastação,
Menino sem pé no chão.
O que não falta é terra pra  plantar
O povo semente boa, frutífera.
O petróleo no fundo do mar navega
É possivel no fundo do mar
No fundo da terra sentir
O coração palpitar,apitar, optar.
A Semente,
A  mente
O ser vee(mente) conscientemente
Lateja pelas linhas da reconstrução
Do seu paraíso fiscal.

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